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    Movimento Coaxial
    21 SET 2019 – 09 NOV 2019

    I. Residência artística Pico do Refúgio

    A exposição Movimento Coaxial aprofunda um núcleo de pesquisa aberto no contexto da residência artística Pico do Refúgio, em São Miguel, Açores, em Novembro de 2018. Na preparação da residência, apresentou-se como incontornável a memória do etnólogo e pintor Luís Bernardo de Ataíde (1883-1955). No âmbito da prática de paisagem que desenvolvo, as imagens da ilha fornecidas pelo seu trabalho de pintura criaram o sentimento de que o meu caminho tinha já sido aberto, tornando-se obrigatório perguntar o que, da sua produção, interceptava o meu percurso.

    À medida que fui vendo as suas pinturas, entrei em contacto com o seu universo, de uma disciplina inicialmente naturalista evoluindo para um impressionismo pessoal, conforme lido numa monografia. O conjunto do seu espólio antecipou-se à minha presença no Pico do Refúgio de duas formas. Uma era bastante visível e geográfica. Indicava-me lugares específicos da ilha representados na pintura. A outra, apontava directamente às preocupações da minha pesquisa. Consistia na antecipação histórica que autores subsidiários do naturalismo faziam à actual produção de paisagem na arte contemporânea. Aquele foi o tempo histórico em que a natureza, e a experiência vivida da paisagem por parte do artista, entraram, de pleno direito, na produção artística. Depois de selecionar um conjunto de pinturas, procurei os locais nelas representados, concentrando-me em paisagens naturais que me chamassem à atenção.

    Levei a cabo um extenso trabalho de pesquisa fotográfica e de geo-localização, com ajuda de diversas pessoas, nomeadamente, no Instituto Cultural de Ponta Delgada. No entanto, os locais aos quais cheguei, alguns carregados de um irrealismo enigmático, talvez tenham sido descobertos por um encadeamento de intuições só possível entre artistas. Foi como se as suas pinturas tivessem assumido a função de mapa. Chegar a um lugar desta forma leva a ver a paisagem por um filtro próprio, e isso mesmo aconteceu na progressão no terreno. No Caminho dos Goianos reconheci uma das suas pinturas. Previ, por isso, que esse caminho me podia conduzir a outros pontos interessantes. De pintura em pintura, avancei entre o Pico do Refúgio e a Lagoa das Sete Cidades. Depois de subir o caminho pela Serra da Devassa, cheguei ao conjunto de pequenas lagoas de crateras vulcânicas correspondentes ao que de facto parecia estar representado: as Lagoas do Carvão, da Empadada e das Éguas.

    De seguida, procurei nas sequências do meu olhar, em constante deslocação, o enquadramento correspondente à abertura que as suas pinturas desenharam na paisagem. Tratou-se de uma investigação especulativa, cujos resultados alimentam questões pesquisadas neste projecto. Percebi, na analise dos trabalhos de Luís Bernardo de Ataíde, a sua disponibilidade para a exploração da paisagem. Por exemplo, a escolha que ele fez de uma zona situada ao lado da Vista do Rei. Actualmente, esse lugar é muito visitado. Mas não o era na sua altura, há cerca de cem anos, aproximadamente. Mais que isso, ele foi mais além do ponto de vista principal, deslocando-se a um outro miradouro lateral, mais recôndito, que só despertaria interesse a pessoas que tivessem uma sensibilidade própria de quem procura um enquadramento.

    No meu contacto com o seu trabalho e o terreno, verifiquei também que os contornos das pinturas nem sempre coincidiam com o que eu reconhecia na realidade exterior, mostrando ajustes entre o desenho do trabalho e o terreno. Ou seja, as representações acusavam deformações de perspectiva, ao encontro da sua sensação visual no local.

    Envolvida estava, portanto, uma escolha, na retaguarda da qual se encontrava a vontade de ir ao encontro de como ele achava que essa sensação podia ser representada. Para mim, essas deformações falam da complexidade envolvida na escolha, entre momentos e memórias multiplicados. Aquele em que ele viu paisagem real, e aquele em que executou a pintura, já com as respectivas escolhas dos lugares a pintar, bem como seus enquadramentos. Para além da minha própria memória, face aos seus trabalhos, neste caso dupla, anterior e posterior a ir ao terreno.

    II. Movimento Coaxial

    A organização da minha relação com a natureza de São Miguel desenrolou-se convocando algumas questões que são agora aprofundadas nesta exposição. A questão da escolha e não escolha de lugares, direcções ou pormenores levados a cabo por um artista, quando define o seu campo. A questão de saber porque é que um artista escolhe um certo lugar em vez de outro. De que forma, quando está perante um determina Pedro Vaz Movimento Coaxial 21.09.2019 – 09.11.2019 KUBIKGALLERY do lugar, se projecta e identifica com ele. Quando estou na paisagem e fixo uma direcção, porque razão não poderia a direcção oposta ser igualmente bela para ser escolhida?

    O conjunto de trabalhos apresentados, dirige-se a essa duplicidade, do que é escolhido e excluído. Somatiza a ambivalência desse acto. Por fim, procura reconciliar, numa organização geométrica distribuída pela exposição, os pontos de vista que se excluem reciprocamente. Movimenta-se em torno de um eixo, no qual, desta vez, sejam criados mecanismos que validem, em simultâneo, a escolha e a não escolha. Ensaia uma solução que refira os diversos movimentos envolvidos no reconhecimento da geografia e topografia da ilha, através do movimento dos passos do corpo do artista. Um movimento coaxial. Procuro que a natureza e a paisagem que são vistas nos meus trabalhos aduzam uma locação visível, a do enquadramento escolhido; mas também toda a exclusão que lhe é adjacente. Refiram a escolha e a não escolha. Portanto, que não só enderecem o que lá está, mas também a sucessão infinita de área abandonada.

    Evocando a continuação natural do mundo, que se prolonga, a nascente e poente de cada janela visual apresentada nos trabalhos.

    Todas as peças da exposição são reguladas por este regime assemblado e duplo de leitura da natureza, valorizando aspectos diferentes em cada obra. Por exemplo, a escultura-vídeo Janela Coaxial (2018) combina, num eixo, a captação de duas camaras, a direcções 180º opostas. Enquanto uma filmava operada por mim, a segunda, ligada a esta, estava direccionada para retaguarda, sem o meu controlo. A Lagoa do Fogo e a Serra da Devassa, representadas nos vídeos, são, portanto, recombinadas numa projecção central, constituindo uma sucessão de escolhas e não escolhas. Outra reconciliação entre escolha e não escolha foi experimentada nas Caixas de Paisagem. Um quarto das lagoas da Serra da Devassa é multiplicado através do reflexo de um eixo. Procurei, para além disso, pensar o permanente convite da paisagem a ser cercada, delimitada, montada e desmontada, na sua perfeição, para fora seu seu contexto. As caixas retiram a paisagem do enquadramento e isolam apenas os aspectos valorizados. Neste gesto, essa unidade fornecida pelo enquadramento é transferida para a tridimensionalidade. Com elas, crio espaço sem a contingência geográfica do território, baseado na minha presença no lugar real durante a visita.

    A interrupção pictórica que um artista faz ao que vê, é uma outra versão da necessidade de escolha. Mas o enquadramento é simultaneamente causa e efeito, tentando recuperar a experiência do artista no próprio lugar. A disposição em eixo opondo duas pinturas, na instalação de pintura Movimento Coaxial (2019), situada na sala principal da galeria, deriva dessa locação reajustada com a qual li a natureza da ilha. As pinturas referem-se às duas Lagoas das Éguas, Norte e Sul, na Serra da Devassa, o conjunto montanhoso que atravessa o seu horizonte. Portanto, duas imagens separam o que na realidade é uma continuação visual e que aqui está novamente ligada.

    Esta exposição foi construída seguindo pistas, e abrindo caminho com decisões orientadas em tempo real pela forma do terreno. Por ter partido de pinturas para a natureza, foi uma geometrização pessoal da ocupação do terreno, inversa à que geralmente pratico.

    Pedro Vaz, 2019

    Pedro Vaz (1977, Maputo, Moçambique)

    Vive e trabalha em Lisboa. É licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2006).

    O seu trabalho artístico centra-se numa pesquisa sobre natureza e paisagem, maioritariamente em pintura e instalação vídeo. O contacto com o lugar é essencial na sua prática, pelo que os seus projectos incluem muito frequentemente viagens solitárias, ou residências imersivas. Estas permitem-lhe elaborar sobre a separação ancestral entre a natureza e o ser humano, num tempo digital, industrial e urbano. Algumas recentes incluem o Tour du Mont-Blanc (Fr, It, CH), as Superstition Mountains (residência Onloaded, phICA, Phoenix) ou a Floresta Amazónica (residência Labverde, Manaus).

    O Jornal Público (suplemento Y) distinguiu em Dezembro de 2018 a exposição individual Azimute, na Galeria 111, Lisboa, na sua selecção das dez melhores mostras de 2018, em Portugal. Para além dessa, exposições recentes a destacar incluem: Muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero, Casa Museu Júlio Pomar, Lisboa (2019); Second Nature, The Kreeger Museum, Washington D.C., EUA (2018); depois do choque, os trópicos, Galeria Luísa Strina, São Paulo (2018); Supersition Wilderness, Galeria Enrique Guerrero, Cidade do México (2017) ou Segunda Natureza, MAAT | Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Lisboa (2016).