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    Parafacts
    22 FEV 2020 – 28 MAR 2020

    Com o título Parafacts, a exposição reúne três obras produzidas entre 2017 e 2018. São duas projecções de vídeo e uma série de fotografias e gravuras que exploram questões recorrentes no trabalho de Salomé Lamas. Na primeira sala apresenta-se Ubi Sunt II (2017) – que teve origem no registo de uma performance de Christoph Both-Asmus para o filme Ubi Sunt I – que consiste num longo plano fixo sobre uma praia, em que na zona da areia se encontra um corpo parcialmente enterrado e coberto de plantas e flores que ocultam o carvão que arde sobre a barriga do performer. O corpo repousa, dorme, ou simplesmente encena a sua pose funerária. Um cenário onde predomina a fixidez e onde o movimento é escasso e lento: constatamos o movimento distante do mar, o balançar quase imperceptível das plantas e flores devido à acção do vento fraco, e o gradual obscurecimento do lugar até se atingir a escuridão nocturna. Entretanto, o som convoca realidades paralelas. Após o som ambiente inicial ouvimos um telefone a tocar, seguindo-se o som esporádico, estridente e abstracto da guitarra eléctrica do músico Felipe Felizardo. Escutamos também o chilrar de pássaros, uma conversa e várias entrevistas a jovens detidos no Centro de Educativo de Santo António, no Porto. Cruzando tempos e memórias, lugares e linhas narrativas, Ubi Sunt (que pode ser traduzido por “onde estão”) compõe um quadro vivo, um requiem fílmico onde se atiçam questões em torno da memória, da culpa e da procura da verdade.

    Na segunda sala encontram-se três fotografias da série Dream World (2018) que reproduzem a sequência de cento e quarenta e oito disparos de fogo de artifício na colossal Casa Monumento do Partido Comunista construída no Pico Buzludzha, entre 1974 e 1981, acompanhadas por duas fotogravuras de Auto-retrato (2016-2018) produzidas durante a rodagem do filme Extinção (2018): uma reproduz o visto provisório de jornalista necessário para entrar na Transnístria; a outra transcreve partes dos diálogos com agentes do KGB, na passagem da fronteira entre a Moldávia e a Ucrânia, no período da Guerra Civil no Leste da Ucrânia.

    Na terceira e última sala é projectado Coup de Grace (2017). É um filme com uma estrutura narrativa peculiar, pautado por saltos temporais e espaciais que contribuem para um imaginário que mistura crítica social e sonho, normalidade e absurdo, humor e drama. O filme acompanha o dia da vida de um homem subjugado ao peso do mundo, reduzido à sua precariedade laboral, social e psicológica. A dado momento a sua filha regressa para o resgatar à solidão e à infelicidade, para o conduzir num derradeiro esforço para reagir perante a adversidade que o afecta. O final, surpreendente e delirante, intui um assertivo golpe de misericórdia: perante a violência moral, psicológica e socioeconómica da sociedade capitalista e burguesa, é possível – é necessário – mobilizar o poder da imaginação, o poder refundador da experiência ficcional para lidar com a crueza do real.

    Salomé Lamas (Lisboa, Portugal)

    Estudou cinema em Lisboa e Praga, artes visuais em Amsterdão e é doutoranda em arte contemporânea em Coimbra.

    O seu trabalho tem sido exibido tanto em contextos artísticos como em festivais de cinema tais como Berlinale, BAFICI, Museo Arte Reina Sofia, FIAC, MNAC – Museu do Chiado, DocLisboa, Cinema du Réel, Visions du Réel, MoMA – Museum of Modern Art, Museo Guggenheim Bilbao, Harvard Film Archive, Museum of Moving Images NY, Jewish Museum NY, Fid Marseille, Arsenal Institut fur film und videokunst, Viennale, Culturgest, CCB – Centro Cultural de Belém, Hong Kong FF, Museu Serralves, Tate Modern, CPH: DOX, Centre d’Art Contemporain de Genève, Bozar , Tabakalera, ICA London, TBA 21 Foundation, Mostra de São Paulo, CAC Vilnius, MALBA, FAEMA, SESC São Paulo, MAAT, La Biennale di Venezia Architettura, entre outros. Lamas recebeu diversas bolsas, tais como a Gardner Film Study Center Fellowship – Harvard University, Rockefeller Foundation – Bellagio Center, Fondación Botín, Fundação Calouste Gulbenkian, Sundance, Bogliasco Foundation, Brown Foundation – Dora Maar House, MacDowell Colony, Yaddo, Berliner Künstlerprogramm des DAAD.

    Colabora com a Universidade Catolica do Porto e à Elias Querejeta Zine Eskola. Colabora com a produtora O Som e a Fúria. Representada pela Galeria Miguel Nabinho e pela Kubikgallery.

    Ao longo dos últimos doze anos, Salomé Lamas tem vindo a construir uma obra imensamente prolífica, que conta já com cerca de 30 filmes e instalações, e que se destaca também por uma combinação idiossincrática e produtiva entre diferentes práticas e referências, nomeadamente do cinema e das artes visuais (da pintura, à performance e à fotografia). Neste domínio imensamente fértil, transgressivo e híbrido, de encontros e tensões entre diferentes culturas da imagem, Lamas tem vindo a desenvolver um trabalho sensível ao jogo com os limites e com as intersecções entre a ficção e o registo documental, explorando a articulação entre diferentes formas narrativas também como um modo de instigar a experiência da memória e a meditação crítica sobre a história. Todas estas possibilidades correspondem a requisitos de um programa artístico e ético que visa acometer as condições e os modos de vida na actualidade, através de um imaginário que privilegia a dramatização e a intensidade estética e psicológica.